terça-feira, 1 de abril de 2014

Carpe Diem, só antes de dormir

Ontem assisti ao About Time, escrito e dirigido pelo Richard Curtis (o roteirista do Quatro casamentos e um funeral). Eu já sabia o que me esperava, porque já tinha lido a crítica corrosiva do The Globe and Mail descrevendo o filme como  “uma telenovela de bebês, momentos emocionantes, pequenas crises e lições sobre saborear cada dia.” O Anthony Lane da New Yorker resumiu assim: “Algumas pessoas vão seesbaldar na calorosa fachada de inocência; outras vão buscar o seu Voltaire.

Entendo perfeitamente e até concordo com o cinismo. Mas chorei feito uma menininha que acabou de cair da bicicleta e ralou o joelho. Comédias românticas e filmes pós-apocalípticos desarmam minhas faculdades críticas (e minha compostura).

O filme é sobre um rapaz que descobre que os homens da sua família podem voltar no tempo para qualquer ponto da sua própria vida, sem grandes riscos de efeitos borboleta catastróficos ou consequências relevantes. Tudo, obviamente, não passa de artificio para nos convencer a apreciar os pequenos milagres, curtir cada momento da nossa “extraordinária vida ordinária”, como diz o protagonista no monólogo em off, no final do filme.  No final das contas, aprendemos com o filme, você nem precisa viajar no tempo para saborear cada dia.

Fui dormir matutando: “É claro, o importante é mesmo saborear cada momento, não se preocupar tanto, curtir a família, ser feliz! O pai do protagonista se aposenta aos 50 anos para jogar pingue-pongue com o filho e tomar chá na areia da praia gelada da Cornuália. Por que eu não posso fazer o mesmo? Relaxa e Carpe Diem!”

No dia seguinte, acordo ansioso. Tenho uma entrevista marcada na rádio Estadão sobre “como equilibrar a carreira (sic) de escritor com a vida executivo em TI (sic também)” e é claro que quero falar coisas interessantes, parecer inteligente e divertido. Leio um artigo sobre a faláciadas 10.000 horas do Outliers do Malcom Gladwell no Brain Pickings. Depois uma resenha sobre o “Focus”, o mais recente  livro do Daniel Goleman (aquele do Inteligência Emocional), que nos lembra que a receita para o sucesso, ou pelo menos para o alto desempenho é foco e treino deliberado. A diferença do treino deliberado para o treino ordinário é que o foco é no erro, no desconforto. Aparentemente, pesquisas mostram que violinistas que treinam as partes difíceis e incômodas das peças são melhores do que aqueles que treinam sempre tudo (porque é muito mais gostoso treinar as partes que você já domina).

Então, saindo de casa, carpe diem enfiado no fundo do bolso, sigo na direção do desconforto, mais uma vez. Eu nem gosto de pingue-pongue.


Um comentário:

  1. De repente aos 50, aposentado e sem mais dúvidas quanto ao sucesso mensurável, ele cai do bolso. Esfarelado entre retratos de casebres austeros na nova zelândia

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