Ontem assisti ao About Time, escrito e dirigido pelo Richard
Curtis (o roteirista do Quatro casamentos e um funeral). Eu já sabia o que me
esperava, porque já tinha lido a crítica corrosiva do The Globe and Mail
descrevendo o filme como “uma telenovela
de bebês, momentos emocionantes, pequenas crises e lições sobre saborear cada
dia.” O Anthony Lane da New Yorker resumiu assim: “Algumas pessoas vão seesbaldar na calorosa fachada de inocência; outras vão buscar o seu Voltaire.”
Entendo perfeitamente e até concordo com o cinismo. Mas
chorei feito uma menininha que acabou de cair da bicicleta e ralou o joelho.
Comédias românticas e filmes pós-apocalípticos desarmam minhas faculdades
críticas (e minha compostura).
O filme é sobre um rapaz que descobre que os homens da sua
família podem voltar no tempo para qualquer ponto da sua própria vida, sem
grandes riscos de efeitos borboleta catastróficos ou consequências relevantes.
Tudo, obviamente, não passa de artificio para nos convencer a apreciar os
pequenos milagres, curtir cada momento da nossa “extraordinária vida
ordinária”, como diz o protagonista no monólogo em off, no final do filme. No final das contas, aprendemos com o filme, você nem precisa viajar
no tempo para saborear cada dia.
Fui dormir matutando: “É claro, o importante é mesmo
saborear cada momento, não se preocupar tanto, curtir a família, ser feliz! O
pai do protagonista se aposenta aos 50 anos para jogar pingue-pongue com o
filho e tomar chá na areia da praia gelada da Cornuália. Por que eu não posso
fazer o mesmo? Relaxa e Carpe Diem!”
No dia seguinte, acordo ansioso. Tenho uma entrevista
marcada na rádio Estadão sobre “como equilibrar a carreira (sic) de escritor
com a vida executivo em TI (sic também)” e é claro que quero falar coisas
interessantes, parecer inteligente e divertido. Leio um artigo sobre a faláciadas 10.000 horas do Outliers do Malcom Gladwell no Brain Pickings. Depois uma
resenha sobre o “Focus”, o mais recente
livro do Daniel Goleman (aquele do Inteligência Emocional), que nos
lembra que a receita para o sucesso, ou pelo menos para o alto desempenho é
foco e treino deliberado. A diferença do treino deliberado para o treino
ordinário é que o foco é no erro, no desconforto. Aparentemente, pesquisas
mostram que violinistas que treinam as partes difíceis e incômodas das peças
são melhores do que aqueles que treinam sempre tudo (porque é muito mais
gostoso treinar as partes que você já domina).
Então, saindo de casa, carpe diem enfiado no fundo do bolso,
sigo na direção do desconforto, mais uma vez. Eu nem gosto de pingue-pongue.
De repente aos 50, aposentado e sem mais dúvidas quanto ao sucesso mensurável, ele cai do bolso. Esfarelado entre retratos de casebres austeros na nova zelândia
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